Archive for the ‘Livros’ Category

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A menina que roubava livros

17/05/2010

Por Mari Matsunaga

 
 

Retomando os posts anteriores quando escrevemos sobre o best-seller Marley e Eu de John Grogan, A Cidade do Sol de Khaled Housseini, agora escrevo sobre o livro do australiano Markus Zusak, A menina que roubava livro (The book thief), também best-seller em 2009.

O livro é narrado pela morte, no qual Liesel Meminger se encontra ao longo da história. A menina vive na época da Alemanha nazista e se muda com seu irmão e sua mãe comunista (perseguida pelo nazismo) para uma cidade próxima a Munique, Molching. Seu primeiro livro furtado (O manual do coveiro) foi de um coveiro que o deixou cair. Porém ela não sabe ler ainda e assim se inicia a saga da menina que roubava livros. 

O casal Hans e Rosa Humbermann decide adotar Liesel por dinheiro, e ela é educada por Rosa que trabalha para a esposa do prefeito. A menina passa horas na bilbioteca particular do prefeito da cidade, onde depois passa a roubar livros de lá com a ajuda de seu amigo Rudy Steiner que era obrigado a integrar a Juventude Hitlerista.

O pai adotivo de Liesel foi soldado na Primeira Guerra Mundial e recebe em seu porão Max Vandenburg, judeu, filho de seu amigo morto na batalha. Max e a menina se tornam amigos, mas com o avanço da guerra, ele decide deixar a casa dos Hubermann para não causar mais problemas a família.

A esposa do prefeito nota os furtos e decide dar a Liesel um livro de capa preta para que a menina começe a escrever sua própria história. Ela demora a saber o que irá escrever e entitula o livro: A menina que roubava livros – uma pequena história de Liesel Meminger.

O Livro foi lançado em 2007 e retrata a vida aos olhos de uma sobrevivente da guerra, onde o culto a Hitler dominava a Alemanha. Em uma narrativa entre o confronto da infância perdida e os escassos e marcas deixado pela Segunda Guerra Mundial, A menina que roubava livros alcançou as listas dos mais vendidos de 2009. A narrativa corre nas 478 páginas contando as aventuras de Liesel Meminger.

Esse link possui um fórum no qual pessoas debatem e escrevem seus comentários, opiniões sobre o livro. Acessem: http://clubedolivro.forumbrasil.net/livros-autores-internacionais-f6/a-menina-que-roubava-livros-t20.htm

Boa leitura e comentem sobre o livro.

 

 

 

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As Filhas sem nome

08/05/2010

por Carolina Bossoni

A mais recente obra da escritora chinesa Xinran (autora do livro As boas mulheres da China) conta a história de três (de um total de seis) irmãs que saem da província rural de Anhui para a cidade de Nanjing à procura de emprego e melhores oportunidades.

As irmãs do livro não têm nome. De acordo com a história o seu pai tem tanta vergonha de ter gerado seis filhas e nenhum filho que não se preocupou em dar nomes a elas, que ficam conhecidas pela ordem do seu nascimento. As irmãs que vão para a cidade são a três, a cinco e a seis. O livro é baseado em histórias reais que Xinran ouviu em sua cidade natal. A narrativa nos mostra elementos da cultura chinesa após a Revolução Cultural. E mostra também as discrepâncias entre a vida de mulheres chinesas do campo e das cidades.

As filhas sem nome nos conta como estas moças venceram inúmeros desafios e superaram, acima de tudo, o estigma de ser mulher em uma cultura que supervaloriza o nascimento de filhos homens e onde os casamentos ainda são arranjados e as mulheres não têm direito de controlar seu próprio destino.

Alguns trechos do livro:

pg.20

“Começa em uma manhã fria de fevereiro, quando uma garota de dezenove anos chamada  Sanniu, que significa “três” em chinês, se viu de pé ao lado do salgueiro, estarrecida devido ao movimento de gente ao seu redor. Três estava fugindo de casa porque seus pais planejavam casá-la com o filho aleijado de um oficial do governo local. Tivera sorte.”

pg. 32

“Li Zhongguo, conhecido no vilarejo como Irmão Li Um, era um homem que jamais sorria. Embora fosse o mais velho dos filhos Li, o fato de que tivera seis filhas significava que ele jamais poderia caminhar de cabeça erguida como um verdadeiro homem, mas, em vez disso, tinha que se curvar  aos seus irmãos mais novos e aceitar um status mais baixo na família.”

pg.130

“As palavras de Cinco chamaram Três e Seis à realidade. Não era culpa dela não ter ido à escola. Os dois anos que Três passara na escola primária foram extremamente difíceis para a família, que mal teve dinheiro para comprar óleo de cozinha.”

pg.168

“De início Seis pensou que o casal era simplesmente ganancioso, querendo acrescentar mais livros à sua coleção pessoal. Afinal de contas, Meng dissera que ainda tinha muitas perguntas a responder. Mas à medida que o tempo passava, ela ouvia alguns clientes dizendo coisas como “Este livro ainda é proibido, mas a proibição quanto a este foi retirada”, e só então ela entendeu por que nem todos os livros podiam ser oferecidos para as pessoas lerem.”

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La niña mala

25/04/2010

Por Tati Bortolozi

Romance do escritor peruano Mario Vargas Llosa, Travessuras da menina má inspira a pensar o amor em suas últimas circunstâncias, nos sacrifícios que ele nos impõe, nas  maneiras que ele subjuga, entorpece, transforma, amadurece.

Escrito em 2006, o livro tem um tom levemente autobiográfico, pois, assim como Llosa, o protagonista, um idoso escritor, inspirado pelo amor, faz um balanço de sua vida sentimental. Com descrições encantadoras e um pano de fundo composto por nada menos que cidades como Lima, Paris, Londres, Tóquio e Madri, a história gira em torno do amor entre Ricardo Somocurcio, um tradutor, e Lily, a niña mala. Para ele, a felicidade é viver em Paris e amar a sua peruanita. Para ela, vale tudo: ser aprendiz de revolucionária em Paris e na Havana dos anos 60, casar com um milionário britânico ou ser amante de um mafioso japonês; tudo isso pensando em ter uma vida melhor.

Ricardito não esconde que ama Lily desde sua infância, quando ela ainda era uma garotinha pobre de Lima que fingia ser rica para conquistar a amizade dos vizinhos. Ela cresce e torna-se uma mulher sedutora, que não hesita em fugir, mudar de identidade ou fazer o que for para garantir um futuro com mordomias.

Ele, em toda sua paixão, apenas se submete aos desejos dela. Ela prefere amar à si própria primeiro, não quer se envolver, prefere sumir sem deixar pistas a qualquer instante. A menina má é realmente muito má sentimentalmente, mesmo para os mais descrentes no amor.

A narrativa ágil e simples conduz por um universo de incertezas, de uma paixão  indefinida, com mil faces. Os personagens secundários são comoventes, como os vizinhos do apartamento de Paris, Simon e Elena, ou o velho da praia de Lima que conversa com as ondas. Confesso que o livro me conquistou a partir da metade para o final, que é quando o passado dos amantes é resgatado e eles, já velhos, pensam no que viveram e em como será o futuro. O desenlace de um amor tão turbulento que durou 40 anos é sempre instigante.

A obra pode não ser o que de melhor foi feito pelo escritor, jornalista e dramaturgo peruano, mas guarda em si a inquietação e a paz do amor, o gosto da paixão e os questionamentos do que é preciso ser ou fazer para amar alguém de verdade. E apesar de tantos questionamentos, ainda é possível ler a última página e sentir o coração aquecido, cheio de tranqüilidade.

Trechos do livro:

– “Felicidade, eu não sei nem me interessa saber o que é, Ricardito. Mas tenho certezade que não é essa coisa romântica e brega que você imagina. O dinheiro dá segurança, proteção, permite aroveitar a vida sem se preocupar com o amanhã. É a única felicidade que se pode apalpar” – página 63

“(…) ela me oferecu os lábios. Eram grossos e sensuais, e senti, nos segundos que ficaram encostados nos meus, que se moviam devagarinho, numa carícia suplementar, cheia de incitações. (…) Dei adeus e ela sacudieu a mão que empunhava a sobrinha florida. Bastou vê-la para descobrir que, naqueles anos, eu não a tinha esquecido um único momento. Estava tão apaixonado como no primeiro dia”. – página 48

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‘O diabo veste Prada’ de Lauren Weisberger

12/04/2010
 

Por Mari Matsunaga 

Último livro que acabo de ler foi ‘O diabo veste Prada’ de Lauren Weisberger. Essa foi a primeira vez que vi primeiro o filme e depois me interessei em ler o livro, geralmente faço o contrário. Não sou especialista em moda, mas confesso que o mundo fashion me atrai, como os grandes desfiles de Nova York, Milão, Paris. 

Surpreendi-me com o livro, ele é muito além do filme, suas histórias nos prendem e apesar de todas as exigências que Miranda Priestly faz a sua assistente Andrea Sachs, uma universitária recém-formada, a frase que não desgruda da cabeça é a de que “milhares de pessoas dariam a vida por esse emprego”. 

O incomum é que Sachs não liga para moda e nunca tinha folheado revistas desse meio, e tudo que quer é uma indicação para entrar na New Yorker. No livro acompanhamos suas desventuras no mundo fashion e das celebridades, com muito humor e acidez. 

Miranda Priestly foi baseada na lendária editora-chefe da Revista Vogue americana, Anna Wintour. Meryl Streep interpreta Miranda no filme, ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz e recebeu duas indicações ao Oscar (Melhor atriz e Melhor figurino).

Aqui fica a dica de leitura! Divirtam-se. 

Encontre mais informações, curiosidades: http://www.adorocinema.com/filmes/diabo-veste-prada/

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Mulheres afegãs

02/04/2010

Por Thais Toledo

Além da amizade entre as duas esposas de Rashid, Mariam e Laila, o livro “A cidade do sol” de Khaled Hoisseni também relata o tratamento que as mulheres afegãs passaram a receber após a instalação do regime Talibã.

Como consta no próprio livro as proibições para mulheres eram as seguintes:

“Atenção mulheres:

– Vocês deverão permanecer em casa. Não é adequado uma mulher circular pelas ruas sem estar indo a um local determinado. Quem sair de casa deverá se fazer acompanhar de um mahram, um parente de sexo masculino. A mulher que for apanhada sozinha na rua será espancada e mandada de volta para casa.

– Vocês não deverão mostrar o rosto em circunstância alguma. Sempre que saírem à rua, deverão usar a burca. A mulher que não fizer isso será severamente espancada.

– Estão proibidos os cosméticos.

– Estão proibidas as jóias.

– Vocês não deverão usar roupas atraentes.

– Só deverão falar quando alguém lhes dirigir a palavra.

– Não deverão olhar um homem nos olhos.

– Não deverão rir em público. A mulher que fizer isso será espancada.

– Não deverão pintar as unhas. A mulher que fizer isso perderá um dedo.

– As meninas estão proibidas de freqüentar a escola.

– Todas as escolas femininas serão imediatamente fechadas.

– As mulheres estão proibidas de trabalhar.

– A mulher que for culpada de adultério será apedrejada até a morte.”

Pergunto a vocês, o que acham de tudo isso? Um absurdo? Desumano?

Para as mulheres do Ocidente apenas usar algo como a burca já parece desumano.. Imagine não poder usar maquiagem, fazer as unhas. Morreríamos na hora..rs Brincadeiras a parte, tal situação é mais séria do que pensamos. No próprio livro em outro trecho o autor nos conta o torturante parto de Laila. Como as mulheres não podem ter contato com os homens, só poderão ser atendidas por mulheres. Mas as mulheres estão proibidas de trabalhar?! Elas foram todas demitidas dos hospitais e mandadas para um posto de saúde. Lá sim as mulheres podem receber atendimento médico. Na história após terem tentado ir a um hospital no qual agora só são atendidos os homens, Laila é expulsa e obrigada a ir a um hospital sem água limpa, ou higiene. Seguem abaixo os trechos:

“A sala de espera do Rabia Balkhi fervilhava de mulheres usando burqas  e de crianças. O ar fedia a suor e corpos não lavados, a chulé, urina, cigarro e antiséptico.

(…) Já tinha escurecido quando a enfermeira finalmente as mandou entrar. A sala de parto tinha oito leitos, todos ocupados por mulheres que gemiam e se contorciam assistidas por enfermeiras cobertas da cabeça aos pés. Duas dessas mulheres estavam em pleno parto. Não havia cortinas entre os leitos. (…)Ao lado da cama, havia uma pia seca e rachada, e, acima dela, penduradas num barbante, luvas cirúrgicas manchadas.

(…)A medica ergueu a frente da burqa pôs uma das luvas que estavam penduradas acima da pia com um pregador de roupas. Quando terminou, a médica entregou a luva a uma enfermeira que a enxaguou e pendurou de volta no barbante.

— Vamos ter de fazer uma cesariana. Sabe o que é isso? Temos que abrir o útero de sua filha e retirar o bebê, pois ele está sentado.

— Mas preciso lhe dizer uma coisa — prosseguiu a médica.

— O que é? — gemeu Laila. — Tem alguma coisa errada com o bebê?

A médica respirou fundo e lhe disse que o hospital não dispunha de anestésico.

— E, se esperarmos mais, você vai perder o seu bebê.—

—Então faça a operação — disse Laila. Deixou-se cair na cama e dobrou os joelhos. — Pode me cortar e retire o meu bebê. 

Laila estava deitada numa maca na velha sala de operações em condições deploráveis. Enquanto isso, a médica lavava as mãos numa bacia.

(…)— Coragem, irmãzinha — disse a médica, inclinando-se sobre o corpo da moça.

Os olhos de Laila se arregalaram. Depois, sua boca se abriu. Ela ficou assim por um bom tempo, tremendo, com os tendões do pescoço esticados, o suor lhe escorrendo pelo rosto, as mãos apertando as de Mariam.”

Comentei o exemplo do parto, pois é um dos momentos mais felizes  para uma mulher. Mesmo que naturalmente de maior dor também. O trecho mostra que a dor sempre pode ser maior do que imaginamos.

Segundo o site da rádio das Nações Unidas, em 2010, a ONU visa um acordo com os Talibãs para incluir direitos para as mulheres. Desejam proteção aos seus direitos eliminando a exclusão que as mulheres afegãs sofrem (http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/detail/176189.html).

Entre a vontade de realizar algo e o acontecer existe um longo caminho. Para nós do Ocidente, após a invasão americana, a situação havia melhorado para as mulheres. Mas isso não ocorreu como relata Mariam Rawi para o site http://www.rawa.org/index.php, do grupo RAWA (Associação Revolucionaria de Mulheres do Afeganistão). ““ Dois anos depois do fim do regime Taliban, a comunidade internacional e a administração transitoria afegã, liderada pelo Presidente Hamid Karzai provou ser incapaz de proteger as mulheres. O risco de estupro e violência sexual por membros armados de facções e ex combatentes é ainda muito alto. Casamenos forçados, pricipalmente com meninas, e violencia contra as mulheres pela família ainda se espalha pela o país” afirmou a Anistia Internacional.

Talvez estejam se perguntado por que falo disso num blog sobre cultura. Acredito que livros e filmes que nos fazem tomar conhecimento de outras realidades e provocam nossa reflexão sobre diferentes situações são de extrema importância para a sociedade. Portanto minha intenção em trazer esta discussão aqui é uma questão de debater e questionar tais aspectos. Não só das mulheres afegãs, como muitas vezes, de mulheres e crianças perto de nós, brasileiras. Às vezes não paramos para pensar, no entanto tais violências acontecem em nosso país. Num bairro muito pobre ou favela. Em hospitais do interior do nordeste, até  mesmo em São Paulo. Será que podemos fazer alguma coisa? Ou tudo está tão longe de nós que o melhor é fingir que não existe? É o que faremos?

O primeiro vídeo é do Jornal Nacional de 2001 sobre o assunto. O segundo é de uma execusão em público de uma mulher.

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O meu, o seu, o nosso Marley

29/03/2010
 
 
Por Mari Matsunaga
 
Gosto de ler livros que estão nas listas dos mais vendidos. Tenho curiosidade em saber o por que de tantas semanas mantidas em primeiro lugar. Um livro que me chamou a atenção foi ‘Marley e eu: a vida e o amor ao lado do pior cão do mundo’ de John Grogan que é best-seller não só no Brasil, mas em vários países, e que posteriormente virou filme. ‘Marley e eu’ também abriu portas para outros autores escreverem sobre seus animais de estimação.
 
Este livro é um romance autobiográfico, e conta a história de um labrador americano que muda e ‘inferniza’ (com humor) a vida de seus donos. Um cachorro que cresce e se torna ainda mais atrapalhado comendo tudo o que vê pela frente, babando nas pessoas, roubando roupas do varal dos vizinhos e quebrando móveis e portas por medo de trovões.
 
Apesar de todas as trapalhadas de Marley, o autor consegue expor sua vida com Marley, tocando os corações de quem também possui seus bichinhos de estimação. Depois de ler o livro, vi sua adaptação nos cinemas (lançado em dezembro de 2008), que assim como o livro, o filme também bateu recorde de bilheteria, ficando em primeiro lugar durante o período lançado.
 

 

Muitas pessoas se identificam com o livro de Grogan, independente de qual seja seu bicho de estimação, e para mim essa foi a fórmula do sucesso de Marley, contar a história de seu cão terrível e bagunceiro e você poder se reconhecer naquela narrativa, nas situações descritas, pois afinal os gatos, cachorros, passáros já são membros da família. 

“Um cão não precisa de carros modernos, palacetes ou roupas de grife. Símbolos de status não significam nada para ele. Um pedaço de madeira encontrado na praia serve. Um cão não se importa se você é rico ou pobre, educado ou analfabeto, inteligente ou burro. Se você lhe der seu coração, ele lhe dará o dele” – John Grogan. E Grogan nos deixa uma lição, de que temos muito a aprender com os animais de estimação.

Visitem o site para obterem mais informações sobre o filme (elenco, curiosidades, fotos): http://www.adorocinema.com/filmes/marley-e-eu

TRAILER DO FILME (LEGENDADO)

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Nossas estrelas

20/03/2010

Por Tati Bortolozi

O livro ‘Minhas duas estrelas’ é a narrativa de Pery Ribeiro sobre seus pais, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. Dalva, consagrada como a Rainha do Rádio em 1951, foi uma das mais queridas intérpretes da música brasileira. Herivelto, além de genial compositor, foi um dos fundadores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira e introdutor do apito nas marchinhas de Carnaval. Defini-los em poucas palavras, no entanto, seria difícil, até injusto. Por conta disto, vale a pena render-se ao livro, que conta o feio e bonito de duas personalidades com o amor e a música a flor da pele.

“Não dá para falar de um sem o outro”. O casal se conheceu no Teatro Pátria, em São Cristóvão. Herivelto formava a Dupla Branco e Preto, com Nilo Chagas, em espaços mambembes, para ganhar uns trocados. Dalva, que apresentava um número de cantos no mesmo circo em que a dupla se apresentava, assistia aos ensaios todas as tardes. Como brincadeira, em um dos ensaios de Dalva, Herivelto arriscou uns contracantos, que foram aplaudidos. Visionário, logo viu a oportunidade de um novo caminho artístico. A dupla Branco e Preto começou a apresentar-se com a cantora e o comunicador César Ladeira, batizou o grupo como um ‘ Trio de Ouro’ quando os anunciou na então famosa rádio Mayrink Veiga.

Junto com a parceria no trio, nascia uma parceria amorosa. Dalva e Herivelto começaram a namorar e não demorou para que passasem a morar juntos, sem papel passado. Na época, um escândalo. Quando os compromissos musicais terminavam, Dalva voltava para casa e tratava de logo preparar uma de suas famosas macarronadas que, acompanhadas de cerveja, serviam a nada mais, nada menos do que personalidades como Dorival Caymmi, Grande Otelo, Emilinha Borba, Pixinguinha e Nelson Gonçalves. O livro mapeia cenas íntimas dos mais reconhecidos expoentes de nossa música, que se trombavam nos bares e cassinos do Rio. Nas décadas de 1940 e 1950, o país criava suas próprias influências musicais. Ser artista era interpretar a emoção e o sucesso comercial não era parâmetro para o talento de ninguém. Só para conhecer o cotidiano dessa geração de cantores, já valeria a pena a leitura das quase 370 páginas, relançadas pela editora Globo pelo sucesso da minissérie inpirada na obra: ‘Dalva e Herivelto: uma canção de amor’.

Durante a união com Dalva de Oliveira, Herivelto teve sua fase mais produtiva artisticamente, compondo sucessos como “Praça Onze” e “Ave Maria no morro”. Na verdade, sua produção foi bastante extensa e algumas de suas músicas são utilizadas para nomear os capítulos, além de serem reproduzidas no livro.

É engraçado perceber que para cada momento da vida do casal, há composições que expressam sua relação afetiva melhor do que qualquer outra tentativa de explicação, seja pela prosa, documentos ou fotografias. São famosas as letras carregadas de mágoa produzidas após a separação, quando, de um lado, compositores amigos de Dalva e, de outro, interprétes que defendiam Herivelto, travaram uma enorme batalha nas rádios brasileiras. A briga chegou aos jornais e atingiu muito a família. A amargura deste momento resistiu até o final da vida dos dois.

Esta e outras situações fizeram do casal um dos mais polêmicos da história musical do país. E embora não deixe de tomar partido da mãe ou do pai em determinadas situações, o autor prefere mostrar que a vida não é feita de maniqueísmos, mas de escolhas, erros, muito amor, coisas tão demasiadamente humanas. E de tão humanos que foram seus pais, tanto quanto ele, mereceram o perdão, dele e do público, e mais do que isso, o mérito de terem sabido transcrever em canções o amor em todas as suas intensidades.